Domingo, Junho 25, 2017

Design velho numa sociedade nova: uma crítica ao futuro do design brasileiro

Nunca se falou tanto sobre design como agora. O Design virou a palavra da vez, agora faz parte do discurso de administradores, políticos, economistas, pregando a importância do papel do design na inovação, no desenvolvimento, na sustentabilidade, e assim por diante.

Nesse cenário em que o design atrai cada vez mais o interesse e os designers estão sendo mais solicitados, a pergunta que se faz é: eles estão preparados para atender essas demandas? O tipo de designer que está sendo formado hoje nas universidades está à altura dos desafios que surgem à sua frente?

A resposta é: não. Por que?

 

O modelo de designers que estamos formando hoje é velho e ultrapassado, e não responde às necessidades que se impõem atualmente.

Esse modelo é resultado de algumas abordagens de ensino adotadas pelas faculdades de design. Alguns cursos focam demais no designer prático (formalista), deixando a teoria de lado por achar que ela é perda de tempo. Ou se concentram no design teórico, em pesquisas acadêmicas, deixando a prática de lado, imaginando que se a teoria por si só vai dar conta dos detalhes práticos.

Outros cursos focam no design politizado, imaginando que o papel do designer é salvar o mundo e que somos o centro de tudo. O que nós fazemos tem impacto global e cabe a nós defender a humanidade do mal e da devastação da natureza. Já outras faculdades não querem salvar o mundo, querem salvar o bolso e o emprego dos designers, atendendo às exigências de um tal de “mercado”, afinal isso é bom e ajuda o país.

Por último, quando não estão concentradas em salvar o mundo ou destruir o mundo, alguns cursos deixam de lado essa discussão e focam no modo de fazer as coisas, pensando que a tecnologia é a solução dos problemas e atende todas as necessidades.
Qual desses modelos é o melhor? Que tipo de designers precisamos formar para responder aos desafios que surgem na sociedade, principalmente agora que o design está chamando cada vez mais a atenção?

Na verdade aí está o problema: não temos que escolher um modelo ou outro. É justamente essa atitude que desequilibra a formação dos designers.

Todos esses modelos que eu citei tem pontos fracos e pontos fortes, e adotar apenas um deles não dá conta das necessidades de formação dos designers.

O que nós precisamos não é designers teóricos, designers práticos, designers politizados, designers consumistas ou designers tecnológicos.

Precisamos é de designers de valor. Eles devem ser criativos, construtivos, de visão independente, que não sejam escravos do sistema capitalista, nem heróis da humanidade com suas idéias pró-sustentabilidade, nem geninhos tecnológicos.

Precisamos de profissionais capazes de desempenhar seu trabalho com conhecimento, inovação, sensibilidade e consciência.

O papel das escolas de design é fomentar essas qualidades nos alunos e não apenas atender as normas de um sistema consumista que se preocupa só com lucros a curto prazo.

As escolas devem satisfação a toda a sociedade, e não apenas às empresas que empregam designers.

Os estudantes de design não deveriam apenas fazer projetos, com coleta de dados, pesquisas e relatórios, para resolver um problema prático ou teórico. Deveriam também fazer uma reflexão sobre o problema, em termos dos seus princípios e valores implícitos, e do significado disso para o design e para a sociedade.

O objetivo dos conteúdos ensinados nas faculdades deveria ser o de oferecer uma visão clara sobre a atuação do designer, ajudando-o a situar seu trabalho nos devidos contextos intelectuais, conceituais e históricos.

A consciência sobre os valores, tanto explícitos, quanto implícitos é o elemento essencial com o qual as matérias da faculdade podem contribuir para o ensino do design.

O designer deve pensar no impacto positivo do design para garantir a sustentabilidade ambiental, mas também deve refletir sobre o papel negativo do design como estímulo do consumo.

Devemos evitar professores de faculdades que nunca fizeram design na vida, que não tem a menor noção de como os designers pensam e criam, e que encaram a prática como nada mais do que uma demonstração de teorias.

Mas também devemos evitar professores que não tem nenhum respeito pelo estudo acadêmico, que acham que o design não passa de uma atividade empírica, que se aprende fazendo.

As faculdades devem formar designers que sejam conscientes sobre o impacto da prosperidade, do consumismo e do estilo de vida como forças sociais e culturais num sentido mais amplo.

Essa compreensão torna o aluno menos propenso a gerar soluções aleatórias com base em suposições erradas ou incompletas, e esteja melhor posicionado para gerar soluções informadas, abrangentes e completas com base em uma compreensão profunda dos valores que dão origem ao projeto de design.

Conclusão

Longe de ser um mero sonhador, um teórico distante ou um técnico sem imaginação, o designer valorizado é, em resumo:

• Aquele que possui uma compreensão crítica dos valores que fundamentam o design

• É corajoso, disposto a defender ideais sociais e culturais mais elevados do que o consumo a curto prazo que leva à destruição do meio-ambiente

• Enxerga no design o potencial para contribuir para uma qualidade de vida melhor e mais sustentável
• Tem consciência do seu próprio valor

Portanto, nota-se a necessidade de se desenvolver um modelo para um novo tipo de designer, munido de uma compreensão mais aprofundada e bem mais complexa da questão de valores, e da sua responsabilidade com o mercado, com a sociedade e com o meio-ambiente.

(Esse texto é baseado no artigo “O Designer Valorizado”, do autor Nigel Whiteley, disponível em:http://www.esdi.uerj.br/arcos/arcos-01/01-05.artigo_nigel(63a75).pdf

 

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