Quarta, Outubro 18, 2017

Crítica do design

Pressões para mudar o design

Num artigo sobre a importância da pesquisa para o design, Meredith Davis aponta cinco motivos pelos quais o design que temos hoje precisa mudar:

 

  • houve um deslocamento do paradigma mecânico, centrado no objeto, da prática do design, em direção a um modelo caracterizado por sistemas que evoluem e se comportam organicamente;
  • há uma transferência do controle dos designers para a mão dos usuários e participantes (também chamados de co-criadores);
  • uma maior ênfase na importância da comunidade;
  • conscientização sobre a convergência das mídias;
  • e a exigência de equipes interdisciplinares que dêem conta da complexidade dos problemas contemporâneos.

Enquanto fora do Brasil eles já estão discutindo o service design (quarto passo, numa sequência que começa com 1.logo, 2.identidade corporativa, 3.branding), aqui ainda estamos discutindo o passo número 1 (logo).

Isso dá o que pensar.

Why we design?

Essa carta foi publicada na revista Before&After, por um designer que trabalha no Haiti, um país onde metade das crianças são subnutridas, 1 em cada 10 vai morrer, 7 em cada 10 adultos são analfabetos e metade da população não tem água potável. A carta está em inglês (desculpe, não tenho tempo para traduzi-la agora), mas fala sobre fazer design num país com essas condições. Eu achei o texto inspirador, e espero que alguns designers também o achem.

 

Carta do designer haitiano:

John Currelly works for the U.S. Agency for International Development [today he works here] as officer of a monitoring unit that keeps the agency, local government and others up to date on the economic and health status of Haiti’s rural populations. Its work is published quarterly in the USAID Monitoring Report and sent free to interested parties.

His Report is like many other desktop-published reports — it’s plain, with pages of text, tables, charts and maps set mainly in Times, in black & white. But it is different in one way. The difference between Mr. Currelly’s report and yours is its content.

Page 4: “Total preschool-child malnutrition rates showed little average difference between January–August last year and the same period this year. In both periods, about 54 percent of children attending the monitored facilities were found to be underweight for their age, and close to 20 percent were moderately or severely affected.”

Page 5 is morbidity data.

Page 6 is low-birthweight data.

Page 16 shows that infant mortality — that’s deaths — is 1 in 10.

Page 17 is the price of food, and it isn’t Taco Bell kind of food; it’s plantain-and-millet kind of food.

Mr. Currelly writes, “I have to say that your publication gives me inspiration to continue on the path of discovery that is desktop publishing. Oddly enough, having been raised as a practical farmer, one of my biggest problems has been getting to believe that making something merely look better was worthy toil. I often justified hours spent on design (expensive hours, paid for by the U.S. taxpayer) by emphasizing the benefits of ‘clarity’ or ‘ease of understanding for busy folks’ that it gave to the production.

“I am coming to believe that pleasing design needs no apology, even, if not especially, in scientific publications. Our societies are now at the stage that a great number of us can not only appreciate the pleasures offered by good design, but almost demand that artistic expression be placed on the same level as informational expression. I’m not sure why, but it has much to do with why we are human.”

Such contrasts these are! Here is a reader, a farmer, who has worked 15 years in a nation where half the children are undernourished and 1 in 10 will die, 7 of 10 adults are illiterate, half the urban population has no access to safe water . . .

. . . pause here for a moment . . .

. . . writing to a magazine subtitled “How to design cool stuff”. . .

. . . inspired by what we do.

What accounts for this? How does design even exist in such an environment, much less inspire?

You might look again at what you do. You sit with a full tummy in your warm office at a blank screen with an ad to make, and you’re thinking, “Jeez, I have to come up with something original and clever and it better be soon.” That’s not how to think. As a designer you have a privilege, one that others do not. It is the privilege of making visible that which others can only imagine, feel or think. When you do this, you open a window through which your audience can see, know and understand.

Design is about communication.

To take a word or a thought and design it is to give it form and body, so others can see, too, and respond.

The more compelling the design, the deeper the response.

By more compelling, I don’t mean prettier, necessarily, or artsier. I mean richer, more complete, more efficient. The design I’m talking about isn’t about making something only look better, but actually function better. Design has to do with how a thing works.

It’s exciting.

So who will give form and body to your company’s name? Who will open the world’s window to your product?

Who will speak for the poor Haitians?

You will. You’ll work at it until it shouts.

You will because you can.

Design is worthy toil.

Design ou Engenharia de Valor?

Leia o seguinte texto e tente descobrir sobre qual área de atuação ele fala:

 

“As fase do plano de trabalho são:

Fase de orientação: aqui se decide o que deverá ser desempenhado, quais os desejos e necessidades reais do consumidor, quais as características e propriedades desejadas quanto ao peso, dimensões, aparência, vida desejada, etc.

Fase de informação: devem ser coletados todos os fatos e informações disponíveis sobre: custos, quantidade, fornecedores, métodos de manufatura, informações sobre o mercado fornecedor, controle de qualidade, embalagem, etc. Deve se determinar qual a quantia que poderá ser razoavelmente gasta em cada um dos fatores em vista das quantidades, custos e outros fatos pertinentes. As funções devem ser estabelecidas, definidas e avaliadas. Devem ser definidas as funções secundárias (funções que não representam a essência do valor).

Fase criativa: após adquirir e entender as informações, são geradas as alternativas. Elas devem ter como consequencia a eliminação de funções desnecessárias ou maneiras mais simples de satisfazer a função requerida.

Fase de análise: aqui cada idéia é avaliada e julgada, de modo a indicar qual alternativa irá funcionar. As idéias são quantificadas e prioridades são estabelecidas.

Fase de planejamento do programa: dividir o trabalho numa programação das áreas funcionais, por exemplo, mecânica, elétrica, proteção (ou conteúdo, programação, projeto gráfico, impressão, acabamento, etc).

Fase de execução do programa: aqui coletam-se mais informações pertinentes e as especificações são confirmadas. Avalia-se o impacto sobre a qualidade, os clientes, usuários, etc.

Fase de resumo e conclusão: um relatório é feito sobre os resultados obtidos e alcançados.”

Isso parece a descrição das fases envolvidas no trabalho de design, certo? Sim, parece.

Só tem um detalhe: esse texto não foi tirado de um livro de design. Foi tirado de um livro sobre Análise do Valor (ou Gerenciamento do Valor), que descreve um método de trabalho proposto por Lawrence Miles, a mais de 60 anos atrás (1947). Ele não era designer, era apenas um engenheiro preocupado em reduzir custos no processo de produção, de maneira criativa, sem prejudicar o nível de satisfação do consumidor. Já em 1947, os engenheiros perceberam que era possível realizar as mesmas “funções”, sem necessariamente precisar gastar mais materiais e consumir mais recursos naturais. Isso é exatamente aquilo que hoje se decidiu chamar de “desmaterialização”, e constitui num dos pilares do design de serviços e num dos princípios defendidos pelo design sustentável.

O que é curioso nisso tudo é ver como alguns engenheiros já tinham uma visão que procurava integrar diferentes perspectivas (do cliente/usuário, do mercado, dos projetistas, dos fornecedores, dos produtores etc.) realizando aquilo que hoje é a base do design.

Teriam sido os engenheiros de valor, na verdade, designers disfarçados?

Será que nós designers não teríamos muito a aprender com esses engenheiros?

Pra quem quiser saber mais, fica a dica do livro “Análise do Valor”, de João Mario Csillag, da Editora Atlas.

Centro no usuário: idéia nova?

Ultimamente o usuário tem ocupado cada vez mais o centro das atenções na Internet. Estudos de mídia online, usabilidade centrada no usuário, mídia gerada pelo consumidor, comportamento das comunidades, conteúdo criado pelos internautas, Web 2.0, enfim, são vários os pontos de interesse nessa figura que antes era apenas vista como um detalhe perto da estrela emergente, chamada de “grande rede de computadores”. Só que no começo nem todos se lembravam que na frente de cada computador poderia haver um ser humano, com interesses únicos e individuais.
A partir de então, o usuário começou a ganhar cada vez mais importância, com direito a defensores dos seus interesses, empresas que procuravam escutar seus anseios e levar em conta suas necessidades. No entanto, o interesse no usuário/ser humano pode ser algo novo na Internet, mas não é fora dela.
Diferentes áreas do conhecimento como antropologia, ergonomia, psicologia, semiótica e retórica já tinham percebido que o ser humano é fator central em qualquer atividade, pois o resultado final de tudo que o homem faz é voltado para ele, ou seja, o fim de toda atividade é transformar o próprio homem.
No caso da antropologia, desde a antigüidade clássica, os gregos já refletiam sobre o papel do homem e utilizavam a “medida humana” como centro de discussão acerca do mundo. Isso demonstrava uma preocupação antropológica, ou seja, procurava um conhecimento completo sobre o homem, suas produções e seu comportamento.
A ergonomia desde 1700 d.C. (com os estudos de Bernardino Ramazzini) já se voltava para o homem como objeto de estudo, visando projetar sistemas, tarefas, produtos, ambientes e trabalhos que fossem compatíveis com as suas necessidades, habilidades e limitações, razão pela qual a ergonomia também é chamada nos EUA de “fatores humanos”.
A psicologia também estuda os processos mentais e o comportamento humano e animal. Em 1879, Wilhelm Wundt já praticava a psicologia separadamente da filosofia, na Universidade de Leipzig (Alemanha), trazendo à tona as questões sobre a relação do ser humano com o ambiente e consigo mesmo.
Assim como a psicologia, a semiótica encara o ser humano como ponto central do seu estudo, na medida em que ele age como o interpretante dos signos, atribuindo significados que são únicos e particulares para cada indivíduo. Ou seja, nunca há dois significados iguais, pois não há dois seres humanos iguais. E o ato semiótico pode ser considerado tão antigo quanto a existência do ser humano, desde o Gênesis bíblico, quando “Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos…”. Coube ao homem dar significado ao que o cercava, pois seria o próprio homem que iria desfrutar dele.
Por fim, o grego Aristóteles, quase 400 anos antes de Cristo, já dizia que a expectativa emocional do ser humano, junto com a credibilidade do orador e a qualidade da sua mensagem, eram essenciais na arte do convencimento ou retórica. Novamente, não tem como se falar de persuasão sem levar em conta as características únicas que cada ser humano possui e como ele contribui para o desfecho final do que é dito no discurso.
Portanto, quem deseja tirar proveito do que a Internet oferece em termos de potencialidades faria bem em aprender com essas ciências que há séculos analisam o comportamento humano e o modo como nós interagimos com o ambiente e dele extraímos significado.

O design gráfico e o preconceito: quando as palavras alimentam a discriminação

O objetivo desse texto é demonstrar que, embora condenem publicamente o preconceito, muitos designers gráficos agem de forma preconceituosa, quando tentam definir verdades absolutas sobre o jeito “certo” de falar algumas palavras usadas na sua profissão. Acerca disso, Marcos Bagno, autor do livro Preconceito Linguístico(2007), afirma:

“Parece haver cada vez mais, nos dias de hoje, uma forte tendência a lutar contra as mais variadas formas de preconceito, a mostrar que eles não têm nenhum fundamento racional, nenhuma justificativa, e que são apenas o resultado da ignorância, da intolerância ou da manipulação ideológica. Infelizmente, porém,essa tendência não tem atingido um tipo de preconceito muito comum na sociedade brasileira: o preconceito lingüístico. Muito pelo contrário, o que vemos é esse preconceito ser alimentado diariamente em programas de televisão e de rádio, em colunas de jornal e revista, em livros e manuais que pretendem ensinar o que é “certo” e o que é “errado”…” (o grifo é meu)

No nosso caso, o preconceito linguístico se manifesta entre designers gráficos que afirmam que usar a palavra “logo-marca” é errado, mas que o certo é usar “logo-tipo”, que “tipo-logia” está incorreto, e que o certo é “tipo-grafia”, ou que ao invés de usar “metodo-logia”, deve-se utilizar apenas “método”, e assim por diante, numa batalha sufixal que tenta definir como devem terminar as palavras.

Mas o que é um preconceito? Segundo o Portal Saúde-Rio (2007), é “uma opinião que se emite antecipadamente, sem contar com informação suficiente para poder emitir um verdadeiro julgamento, fundamentado e raciocinado. Ao contrário do que se possa pensar, são opiniões individuais. Em geral, nascem da repetição irrefletida de pré-julgamentos que já ouvimos antes mais de uma vez”. (o grifo é meu).

O preconceito gera a discriminação, que é o “tratamento desfavorável dado arbitrariamente a certas categorias de pessoas ou grupos, que pode ser exercido de forma individual ou coletiva” (International Encyclopedia of the Social Sciences).

Portanto, quando designers gráficos desqualificam outras pessoas ou designers porque eles usam essa ou aquela palavra, mas sem ter uma base fundamentada para isso ou informação suficiente, baseando-se apenas em opiniões que ouviram várias vezes, eles estão sendo preconceituosos e praticando a discriminação.

Alguns designers ouvem outras pessoas dizerem “logomarca”. Em seguida, já imaginam “xiii, coitado, esse daí não sabe o que diz, no mínimo estudou numa faculdadezinha do interior” ou diz pra si mesmo: “que pessoa ignorante, não sabe que essa palavra não tem significado nenhum”. Ou ainda classifica o outro designer como sendo inferior e não tendo o direito de pertencer ao grupo dos designers “profissionais” e competentes. Essa idéia reflete o que diz Rodrigues (1999): “Quase sempre, temos uma valorização positiva do nosso próprio grupo, aliado a um preconceito acrítico em favor do nosso grupo e uma visão distorcida e preconceituosa em relação aos demais.”

Ele ainda afirma: “…dá status falar “corretamente”, na idéia ingênua de que a língua dita culta é uma ponte para a ascensão social. Quem não domina a variante padrão é marginalizado/a e ridicularizado/a: na hora de preencher uma vaga profissional, num concurso vestibular, numa situação de conferência, na escola.” (Rodrigues, 1999) (o grifo é meu).

Numa tentativa de justificar a superioridade de uma palavra sobre outra, não faltam esforços. Talvez o mais emblemático seja o texto “Logomarca, por quê?” (http://migre.me/3s7cY), escrito e publicado por Ana Luisa Escorel no livro “O efeito multiplicador do design”. Só que ao invés de “multiplicar” conceitos éticos fundamentados, esse artigo multiplicou apenas as crenças próprias da autora, e dividiu as pessoas a partir do preconceito linguístico. Talvez a autora não tenha culpa pelas aberrações que fizeram com o texto dela, já que no prefácio ela deixa muito claro que os seus artigos  tem “caráter mais pessoal”, “abordados por um viés identificado com convicções”. Obviamente a autora tem o direito de dizer o que pensa (por exemplo: “logomarca não significa nada”), mas existe uma distância muito grande entre dizer algo e isso ter algum tipo de fundamento válido, a ponto de ser repetido quase como um dogma, um axioma.

Nesse texto, Escorel (2004) emite opiniões pessoais que desqualificam os brasileiros. Segundo ela, o termo logomarca é fruto de uma invenção brasileira e que essa invenção não tem mérito nenhum, já que “não se vai para o paraiso só porque se é inventivo”. Ela argumenta ainda que se inventar fosse uma coisa boa, o Diabo estaria salvo, pois ele também costuma ser engenhoso.

No entanto, embora a autora imagine que a palavra “logomarca” tenha sido inventada no Brasil, não é o que aconteceu, pois se assim fosse, ela já não existiria em outro idioma, conforme é indicado por Sebastiany (2009). O que nós fizemos foi no máximo emprestar a palavra dos ingleses, no processo que os linguistas chamam de “apropriação” (borrowing) (http://migre.me/3s7bJ).

Continuando no seu menosprezo aos brasileiros, Escorel (2004) ainda condena a maneira como os pais dão nomes a seus filhos, dizendo que esse comportamento reflete “um gosto duvidoso”. Esse pensamento reflete o preconceito linguístico de quem acha que existe o jeito “certo” de se falar ou usar as palavras, de se criar ou usar nomes.

O texto de Escorel (2004) foi re-publicado e citado inúmeras vezes em outros blogs e artigos. Tomando o texto dela como ponto de partida, plagiando o argumento da autora, um outro texto foi escrito por Gilberto Alves Jr. (2002), chamado “Logomarca: um erro” (http://migre.me/3rzl7), publicado numa comunidade de designers gráficos online, de alta visibilidade. Além de também servir de base para o preconceito linguístico, o texto é uma coleção de argumentos confusos e simplistas, que cometem o erro de encarar algo complexo como se fosse muito simples.

A seguir é possível ler o argumento central do seu texto:

“O termo logomarca é formado pela união de “Logo” e “Marca”.

Logo, vem do grego Lógos. Significa palavra, uma narração ou pronunciamento, verbo, conceito, idéia. Mas não palavra como esta é falada ou escrita, mas o significado dela, ou seja o conceito. “

“Marca, vem do germânico Marka. Quando traduzimos do germânico, ou mesmo do português ou inglês para o latim temos o termo Signum, que traduz-se claramente para significado. E mesmo no português, e no uso moderno da palavra marca significa tudo aquilo que uma empresa representa. Sendo assim, logomarca é um termo redundante: significado do significado. Assim vemos porque não podemos utilizar este termo para falar sobre um Logotipo.”

No seu texto, Alves Jr. (2002) dá a entender que logomarca é uma palavra “errada” (e portanto todas as pessoas que a utilizam ao invés de “logotipo” cometem “um erro”). No entanto, isso se baseia numa premissa inválida. Segundo ele, a palavra “logomarca” se originou da união entre duas palavras (“logo” e “marca”). Essa afirmação é simplista, baseada em pura especulação. Ele não cita nenhuma fonte para esse argumento e demonstra desconhecimento sobre outros processos de formação das palavras além da composição (como derivação, hibridismo, fusão, reuso, abreviações, acrônimos, afixação e apropriação). E demonstra desconhecer a origem da expressão “logo mark” utilizada na língua inglesa. Mas o termo “logomarca” não é invenção de brasileiros, é uma expressão utilizada fora do Brasil (“logo mark”) e que faz parte do idioma inglês, sendo plenamente compreendido e aceito inclusive por escritórios de registro de marcas (http://migre.me/3rDZu) e advogados que costumam ser muito preocupados com a precisão dos termos que utilizam.

Além de especular sobre a origem da palavra, Alves Jr. (2002) ainda afirma que a palavra “marca” vem do alemão “marka”. Daí, num rodeio inexplicável, ele traduz do alemão para o latim, chega na palavra “signum” e daí conclui precipitadamente que “signum” traduz-se para “significado”, IGNORANDO completamente os demais sentidos que a palavra pudesse ter, distorcendo o sentido conforme sua conveniência.

Para entender melhor essa confusão, podemos fazer uma análise isolada da palavra “mark”. O Dicionário Etimológico Online (www.etymonline.com) traz as seguintes definições sobre o termo e sua origem:

“trace, impression,” O.E. mearc (W.Saxon), merc (Mercian) “boundary, sign, limit, mark,” from P.Gmc. *marko (cf. O.N. merki “boundary, sign,” mörk “forest,” which often marked a frontier; O.Fris. merke, Goth. marka “boundary, frontier,” Du. merk “mark, brand,” Ger. Mark “boundary, boundary land”), from PIE *mereg- “edge, boundary” (cf. L. margo “margin,” O.Ir. mruig “borderland”). The primary sense is probably “boundary,” which had evolved by O.E. through “sign of a boundary,” “sign in general,” “impression or trace forming a sign.” Meaning “any visible trace or impression” first recorded c.1200 (http://migre.me/3rGGl).

Segundo esse dicionário, “mark” teve diversas origens, como o West Saxon, Mercian, Old Norse, Old Frisian, Gothic, Proto-Indo-European e Old English, ou seja, não tem origem apenas alemã. Além disso, o sentido básico da palavra é “limite que demarca uma fronteira”, que depois evoluiu em cerca do ano 1.200 E.C. para “qualquer traço visível ou impressão”. Traduzindo marca em alemão (“marke”), ela pode significar “emblema, etiqueta, selo, carimbo, um sinal visível que indica uma altura, nível de água, o nome de um produto ou empresa” (http://de.wikipedia.org/wiki/Marke).

Portanto, fica a pergunta: de onde foi que Alves Jr. (2002) tirou essa idéia de que marca significa PURA e SIMPLESMENTE “significado”? Por que ele ignorou outros sentidos possíveis para a palavra que servem perfeitamente para expressar o fato de que ela pode ser uma manifestação visível/perceptível de uma idéia (“logos”)?

Outra coisa que não tem fundamento é desqualificar a palavra logomarca dizendo que ela é um pleonasmo (chegou-se ao ponto de apresentar esse preconceito em forma de gráfico http://migre.me/3s75d). Se “logo” significa “conceito” e “marca” pode significar “sinal ou manifestação visível”, a palavra não tem nenhum defeito semântico, sendo suficiente para indicar um “elemento visual de identificação”. Portanto a afirmação de que o sentido da palavra logomarca é SOMENTE “significado do significado” é falsa.

Vale lembrar ainda que continuar divulgando e reforçando textos completamente tendenciosos, imprecisos e especulativos, como esses que condenam o uso da palavra “logomarca”, serve para alimentar uma atitude preconceituosa e discriminatória entre os próprios designers, um comportamento que é facilmente verificável numa visita a um fórum de discussão online, nos comentários dos blogs de design gráfico, em artigos publicados e mais recentemente no twitter também (http://migre.me/3s79Y). Ao invés de ficar rebaixando ou menosprezando outros designers que não usam o termo que pessoalmente se acha “certo”, eles deveriam refletir se isso vale a pena.

Enfim, nem sempre o que se considera como “verdade” realmente é. Devemos combater o efeito multiplicador da ignorância e entender que não somos superiores a ninguém. Obviamente temos o direito de nos expressar e defender o que julgamos ser correto. Mas não temos o direito de considerar os outros como sendo inferiores a nós por puro preconceito. Ao invés de travar combates ao redor de palavras, os designers devem se unir e perceber que tem mais coisas em comum do que diferenças.

“Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las” – Baruch Spinoza, filósofo holandês

Referências

Alves Junior, Gilberto. (2002) Logomarca: um erro. Disponível em http://migre.me/3rzl7 . Acessado em 5 de janeiro de 2011.

Bagno, Marcos. (2007). Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola. 49ª edição.

Block, Walter E., and Michael A. Walker. 1982. The Plight of the Minority. In Discrimination, Affirmative Action, and Equal Opportunity: An Economic and Social Perspective, eds. Walter E. Block and Michael A. Walker, 6. Vancouver, BC: Fraser Institute.

“Discrimination.” International Encyclopedia of the Social Sciences. 2008. Encyclopedia.com. (January 5, 2011).http://www.encyclopedia.com/doc/1G2-3045300608.html

Escorel, Ana Luisa. (2004) “Logomarca: por quê?” in: O efeito multiplicador do design. Editora Senac. São Paulo.

Portal Saúde-Rio. Termos utilizados na luta contra o racismo. Disponível em http://migre.me/3rv9G. Acessado em 5 de janeiro de 2011.

Rodrigues, Fabio (1999). Preconceito lingüístico e não-lingüístico na escola/livro didático. Disponível emhttp://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/p00003.htm. Acessado em 5 de janeiro de 2011.

Sebastiany, Guilherme (2009). Logomarca? Porque sim e porque não. Disponível em http://migre.me/3rzJk . Acessado em 5 de janeiro de 2011.

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